sábado, 24 de agosto de 2019

Campanha Salve a Estação - Iniciativa Brilhante em São João do Rio do Peixe

Olá amigos do HFPB. Hoje trago com enorme satisfação uma postagem que realmente me alegra e muito. Trata-se de uma excelente iniciativa organizada pela população do município sertanejo de São João do Rio do Peixe
O amigo são-joasense Wlisses Estrela é um dos organizadores do movimento em prol da restauração e implantação de um espaço cultural na antiga estação local. Wlisses me passou todos os dados da grandiosa empreitada que este e outros estão aplicando em prol do patrimônio histórico municipal.
Pois bem, o projeto se chama "Campanha Salve a Estação", fundada em junho de 2016, é uma iniciativa da sociedade civil organizada em parceria com igrejas, clubes de serviços, DeMolay, sindicatos, Prefeitura Municipal, entre outros. Esta campanha tem como objetivo arrecadar recursos financeiros para a restauração de um dos mais significativos patrimônios históricos e culturais do Sertão paraibano, me refiro mais uma vez a estação de São João do Rio do Peixe
Foi em São João do Rio do Peixe que no dia 1° de junho de 1922 recebeu o primeiro trem de lastro do Sertão paraibano com materiais de construção provindo do Ceará para o prolongamento da então "Estrada de Ferro Ceará - Parahyba". 
No dia 5 de agosto de 1923 recebeu o primeiro trem de passageiros inaugurando a primeira etapa das obras de prolongamento do trecho. Foram inauguradas o ramal ligando São João do Rio do Peixe a Cajazeiras, iniciando assim o tráfego provisório do ramal terminado.
Isto só mostra o grau de importância e estratégico da estação local.
Para isso foram realizadas diversas ações como bingos, rifas, serestas, festivais de sorvete, partidas de futebol, pedágios, campanha do envelope, etc. Também foi aberta uma conta bancária  para que se interessar em fazer sua doação a campanha.
Através da campanha "Salve a Estação" a sociedade são-joanense conseguiu realizar o sonho de restaurar um de seus mais preciosos bens históricos. A campanha trouxe o lema da preservação do patrimônio como proteção da identidade local. Lamentavelmente patrimônio este tão arruinado pelos gestores que se sucederam no poder ao longo de décadas, e muito contribuíram para a total eliminação de grande parte dos espaços históricos da cidade. 
O objetivo não é apenas restaurar o prédio e deixar sem nenhuma função. No local será instalado o "Instituto Cultural Estação das Artes". Será instalado no local o Memorial São Joanense, a Biblioteca Municipal Professora Rosilda Cartaxo e a Secretaria Municipal de Cultura.
No dia 28 de setembro próximo, será enfim entregue a população este espaço conquistado com tanto esforço por parte dos membros envolvidos na campanha. Festa esta que promete ser grandiosa. 
Wlisses emocionado me disse: "Sobre o sentimento dos São-Joanenses" em se empenhar para restaurar o prédio que é mais do que apenas uma construção, mas é simbolo de identidade do povo... É símbolo de sentimentos que pulsam no coração." 
É através destas belas palavras que também me emociono com iniciativas como a que está sendo realizada na distante cidade de São João do Rio do Peixe. Ações como esta deveria ser exemplos para muitas outras localidades que infelizmente não tem o mesmo pensamento preservacionista em lutar pelos seus ideais. Fica o exemplo que deveria sim ser copiado. 
Agradeço a Wlisses e a todos a população de São João do Rio do Peixe pela repito brilhante iniciativa. Não me canso em elogiar a ação destes. 
Abaixo as imagens fornecidas por Wlisses de como encontraram a situação da estação antes da campanha e durante as ações de restauração: 

Quadro em que se encontrava a estação antes da campanha, total abandono:


















Imagens mostrando o início das obras de restauração e sua evolução:

Cartaz da "Campanha Salve a Estação" e conta para doações abaixo

Início dos trabalhos de restauração



































quinta-feira, 1 de agosto de 2019

100 Anos da Companhia Parahybana de Beneficiamento e Prensagem de Algodão (CPBPA) - Relação Com a Ferrovia Paraibana

Olá amigos do HFPB. Hoje, dia 1 de agosto de 2019 é uma data histórica para a indústria campinense e paraibana. Nesse exato dia há 100 anos atrás foi fundada pelo Engenheiro Dr. José Heronides de Hollanda Costa a Companhia Parahybana de Beneficiamento e Prensagem de Algodão (CPBPA)
Companhia esta, formada com um capital nacional de Rs (réis). 800:000$000, tendo como incorporadores, além do Dr. Heronides, os senhores Dr. Eduardo Perisot Octavio Penna e Fernando Gomes Pedrosa, este chefe da firma S.A. Wharton Pedrosa de Natal - RN.
A companhia tinha como objetivo o estabelecimento de usinas de beneficiamento do algodão, nosso famoso e conhecido "Ouro Branco", e aproveitamento dos sub-produtos do carôço do mesmo, em municípios como Campina Grande, Alagoa Grande, Itabaiana, Parahyba (João Pessoa), entre outros. Campina Grande na época exportava mais de 150 mil sacos de algodão anualmente.
Então, qual a relação desta companhia beneficiadora com a ferrovia paraibana. Sim, elas tinham relações de cooperações mútuas. Quando a usina da CPBPA foi  instalada na cidade entre 1920 e 1921, esta foi montada nas proximidades da estação ferroviária, na confluência da Rua da República (A partir de 1938 Rua Miguel Couto) com a Avenida Almeida Barreto. No caso da usina campinense, a GWBR em parceria com o grupo empresarial da companhia algodoeira construiu um desvio até o complexo industrial da mesma, logo após o armazém da estação, "cortava" a Avenida Almeida Barreto e adentrava no referido parque industrial. Quase que diariamente composições levavam os fardos prensados em direção aos portos de Cabedelo, Recife e Natal e daí para diversas partes do país e mundo. A área ocupada pelo complexo industrial era de 15 mil metros quadrados.
Realmente era uma usina formidável, dispunha de uma prensa hidráulica horizontal do fabricante inglês David Bridgé da marca Chester construída pela Hydraulic Engineering Co. Ltd., na Inglaterra. Tinha a capacidade de produzir 250 fardos de 195 quilos por dia, ou seja, o beneficiamento diário de 750 sacas de 65 quilos diários e com densidade de 56 libras por pé cubico.. Além da prensa hidráulica, a usina dispunha de aparelhamento "Sistema Munger" (inventado por Robert S. Munger no final do século XIX) para descaroçar algodão, num total de 240 serras e com capacidade para descaroçar diariamente 18.000 quilos de algodão em caroço, sendo estas levadas para as descaroçadeiras por tubos de sucção. 
A força motriz para a prensa e descaroçadeiras era realizada por um motor diesel de 150 HP que acionava também um dínamo para a iluminação de prensa e demais dependências. 
Além disso, a companhia também dispunha de uma bela residência para o gerente local, localizada ao lado da mesma, mas que infelizmente desapareceu década atrás. 
Resumindo, foi uma das mais importantes companhias do ramo instaladas em todo o Estado, contribuindo com o elevadíssimo tráfego ferroviário de trens de carga em Campina Grande.
Em 1936 a companhia foi adquirida pela multinacional norte-americana Anderson Clayton & Cia. Passando a se chamar Companhia Paraibana de Amarzéns Gerais. No ano seguinte ocorreu uma grande reforma no complexo com a ampliação de vários setores.
Porém, os tempos de glórias cessaram, a partir do final da década de 1950 a linha férrea que adentrava seu parque industrial foi sendo retirada. Infelizmente nada mais resta no local que evidencie que no passado os trilhos adentravam por ali. As atividades industriais encerraram definitivamente por volta de 1965. Todo o complexo industrial foi utilizado por diferentes ramos a partir de então. Grande parte do complexo foi preservado, constatando as diferentes tipologias arquitetônicas construídas desde a década de 1920 até a década de 1950.
Deixo aqui esta singela homenagem nesta importante data, a uma das maiores industrias algodoeiras da Paraíba, reconhecida em todo o Nordeste. Ajudando e muito na elevação de Campina Grande em "Rainha da Borborema".

Fontes: Annuario de Campina Grande para 1926. Org. João Mendes. Jornal do Commercio, Recife, 1925. 
Diário de Pernambuco - 11-06-1921
Sob o Céu Nordestino. Walfredo Rodriguez, 1929 - Vídeo do Youtube
IBGE - 1957
Arquivo Histórico da Secretaria Municipal de Educação de Campina Grande, SECULT.

Imagem rara da Companhia Parahybana em 1923 (aproximadamente). Fonte: Sob o Céu Nordestino. 

Sequencia em outro ângulo da Companhia Parahybana. Fonte: Sob o Céu Nordestino. 

 
Lateral da Companhia Parahybana em 1923 (aproximadamente). Com os fardos amontoados em torno da usina. Fonte: Sob o Céu Nordestino. 

A Usina e seus armazéns as margens do Açude Velho na década de 1920.

Um dos armazéns da usina em meados da década de 1930.

Companhia Paraibana já incorporada a Anderson Clayton & Cia em 1938 já reformada ampliada. Ao lado direito a bela residência do gerente local. Nesta 

Companhia Paraibana em 1957. Fonte: IBGE.

Propaganda da CPBPA extraída do jornal  campinense A Imprensa de 28 de novembro de 1928.

Propaganda da CPBPA extraída do jornal  campinense Brasil Novo de julho de 1931.

Foto aérea do início da década de 1980 mostrando o complexo da antiga CPBPA. A seta indica exatamente o local aonde adentravam as locomotivas e seus vagões para a exportação dos fardos prensados. Fonte: Arquivo Histórico da SECULT.

A seta indica possivelmente parte da antiga plataforma de embarque dos fardos para os vagões a serem exportados. Fonte: Arquivo Histórico da SECULT.

O prédio da antiga usina 100 anos depois.

O prédio da antiga usina 100 anos depois.

Antigos armazéns da complexo industrial. Atualmente ocupados por outros setores.

O prédio da antiga usina 100 anos depois. 

Foi exatamente neste lugar aonde as locomotivas eram carregadas com fardos para a exportação. Na época não existiam estes dois prédios, apenas um portão e muros dividiam com a Avenida Almeida Barreto.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

A "Cruz do Maquinista" - O Terrível Acidente de 04 de Janeiro de 1952

Olá amigos do HFPB. Em mais uma postagem no nosso super blog trago hoje a trágica história do grave acidente ocorrido no dia 04 de janeiro de 1952 com o trem prefixo PN.1, que conduzia uma composição de passageiros com destino a Natal no Rio Grande do Norte.
O acidente aconteceu a 2,5 km da estação de Itamataí, sentido Sertãozinho, as 14:30 horas, quando a composição que seguia em direção ao Rio Grande do Norte descarrilou na altura do Sítio Passassunga, divisa entre os municípios de Araçagi e Pirpirituba, (o local do acidente fica 500 metros após a Ponte de Passassunga, retratada em postagens anteriores).
A locomotiva que conduzia a composição era do tipo "mogul" 2-6-0 construída pela North British Locomotive Company de 1904, número de série 230. Esta locomotiva foi convertida para queimar óleo combustível em vez de lenha ou carvão. 
Segundo relatos da época a composição era conduzida pelo maquinista com alcunha de "Boneco" (infelizmente sem maiores detalhes sobre seu verdadeiro nome). 
O amigo e ciclista pirpiritubense Emival G. Barros me contou que seu pai quando criança foi visitar o local da tragédia e disse que as vítimas do sinistro teriam sido o maquinista e o foguista, ambos gravemente feridos. Ele e o foguista tentaram até o fim parar a máquina tombada. 
Dois passageiros também ficaram feridos no descarrilamento, porém, sem gravidades. Essa história também é relatado por moradores mais antigos da região.
Este acidente foi noticiado na época pelo renomado jornal Diário de Pernambuco de 05 de janeiro de 1952, que em suas páginas noticiou com o seguinte título: "Horrível descarrilamento do trem de Natal". Porém o autor cometeu um erro grande, ele mencionou que a estação de Itamataí se localizaria no Rio Grande do Norte, mas existe apenas uma estação com este nome localizada aqui na Paraíba, município de Guarabira. Talvez o autor tenha se confundido já que o comboio seguia transito partindo do entreposto ferroviário de Itamataí (contado em postagens anteriores) até Natal no Rio Grande do Norte
Infelizmente no jornal não nos traz informações posteriores ao acidente, mas no local se encontra uma cruz de ferro em uma base de tijolos e cimento simples confirmando que ali faleceu o maquinista deste terrível descarrilamento. O maquinista "Boneco", como era conhecido o condutor da composição, não resistiu aos graves ferimentos,  devido as fortes queimaduras sofridas pelo mesmo. 
Emival no mês de janeiro do corrente ano esteve no local do acidente e gentilmente me enviou imagens da "Cruz do Maquinista", nome este batizado por mim, porém não tenho conhecimento se este local era conhecido dessa forma. 
Confira abaixo as imagens da referida cruz:  

A "Cruz do Maquinista". Foto: Emival G. Barros.

A "Cruz do Maquinista". Foto: Emival G. Barros.

Local do sinistro em 04 de janeiro de 1952. Foto: Emival G. Barros.

Local do acidente marcado no círculo amarelo. Fonte: Google Earth.

domingo, 19 de maio de 2019

Aspectos Atuais da Linha Férrea em Sertãozinho

Olá amigos do HFPB. Como todos nós sabemos, a linha férrea paraibana, assim como grande parte da ferrovia brasileira passa por um estado de degradação e abandono. 
Nos últimos cinquenta anos ramais, estações, armazéns, residências ferroviárias, linhas, entre outros, vem passando por períodos de desvalorização, sucateamento e total desrespeito a a este meio de transporte que impulsionou a economia brasileira por décadas. Erro crasso das autoridades e órgãos competentes em "abandonar" quase que por completo nossas ferrovias.
No caso da Paraíba, a situação é ainda pior, estações, linhas, ramais e outras dependências praticamente sucumbiram ao abandono injustificável de décadas. Em visita ao município de Sertãozinho em janeiro último, região de Guarabira, Agreste paraibano, o amigo, aventureiro e pesquisador pirpiritubense, Emival G. Barros, constatou o estado de completo e absoluto desprezo e abandono da malha ligando Guarabira ao Rio Grande do Norte
Este ferrovia foi inaugurada em 1 de janeiro de 1904 com o intuito de unir via férrea os estados da Paraíba com o Rio Grande do Norte, possibilitando a praça de Natal ligar também com o estado de Pernambuco, unindo assim os três estados nordestinos através do "cinturão de ferro".  O tráfego de trens de passageiros foi interrompido em 1979 e de cargas em 1999. Nesta última viagem em 1999 de um trem de carga, segundo relatos de moradores de Guarabira, a composição transportava de alguns veículos militares, carregamento de sal, blocos de ferro, combustível entre outros. 
Ficando assim a partir de então desde aquela data em completo e total abandono. 
Emival gentilmente envio as imagens da visita, e o que o mesmo constatou não é nada agradável. Descreverei o que o amigo viu no município:

"As fotos por si falam, os trilhos desde da entrada de Sertãozinho até a saída para a cidade de Duas Estradas estão soterrados, pouco se ver, na entrada (sentido Sertãozinho - Duas Estradas) tem um corte que já praticamente desapareceu, aterros sumiram, da velha estação só resta a plataforma que também mal dá pra se ver. Próximo tem umas ruínas que acredito serem do antigo armazém, ou depósito. 
Também na entrada da cidade já não se ver  mais os trilhos, asfaltaram tudo, na antiga PN (Passagem de Nível). "

Emival ainda percorreu parte do trecho da ferrovia e constatou o vandalismo e roubo de trilhos em um trecho que compreende entre o Sítio Castanha Velha até as proximidades da cidade. Resumindo, em um trecho de aproximadamente 2 a 3 quilômetros de trilhos furtados.
Estruturalmente para se fazer uma comparação, a estação de Sertãozinho era semelhante a estação de Duas Estradas. Felizmente esta última preservada e recentemente restaurada pela municipalidade, constituindo em um espaço para o turismo. 
Lamentavelmente este é um dos piores quadros já vistos na Paraíba em questão de preservação da malha férrea. Confira abaixo as imagens de Emival em Sertãozinho:


Parte da plataforma da antiga estação local.

Trilhos enterrados na entrada de Sertãozinho

Um dia o trem passou por aqui. Constatada pelos postes de telégrafos ainda resistentes ao tempo.

Restos da plataforma do antigo armazém.

Restos dos trilhos e plataforma da estação.

Restos da antiga plataforma da estação.

Trilhos enterrados. Um dia o trem passou por aqui.

Imagem da década de 1960 de uma família (desconhecido) ao lado da velha estação de Sertãozinho.  Fonte: www.estacoesferroviarias.com.br