sábado, 10 de abril de 2021

Vídeo - Obras D"Artes - Bueiro em Arco - Sítio Antas - Puxinanã

Olá amigos do HFPB. Em visita recente ao município de Puxinanã, através de sua linha férrea abandonada, confirmei a existência de três grandes bueiros em arco na região. Estas grandiosas obras d'artes foram construídas para o escoamento das águas fluviais de mananciais existentes no município, a exemplo do Rio Bodocongó, para o prolongamento entre Campina Grande a Patos a partir da segunda metade da década de 1940.
Esta história foi postada anteriormente no blog, hoje deixo aqui um pequeno vídeo que fiz no bueiro localizado no Sítio Antas, a cerca de 3,5 km da antiga estação local. Confira abaixo a magnitude desta grande obra d'arte da engenharia ferroviária:


  

domingo, 4 de abril de 2021

4 de Abril de 2021 - 70 Anos de Inauguração da Estação de Puxinanã - Primeiro Trecho do Prolongamento Campina Grande a Patos

Olá amigos do HFPB. Hoje, 4 de abril de 2021, é uma data especial, data que comemora os exatos setenta anos de inauguração do primeiro trecho entre Campina Grande e Patos, o que só viria a ser totalmente entregue em 8 de fevereiro de 1958. Este trecho mencionado acima corresponde ao entregue em 4 de abril de 1951, em um trecho de 17 quilômetros, entre Campina Grande e Puxinanã, então distrito campinense.
As obras de prolongamento desse trecho haviam sido iniciadas na segunda metade da década de 1940, com trilhos assentados até o km 9, a partir de Campina Grande. Daí até o km 17 (onde está localizada a estação de Puxinanã), as obras haviam sido atacadas.
 De acordo com o jornal Diário de Pernambuco de 13 de junho de 1948: 

"...a ligação ferroviária de Campina Grande a Patos - Está sendo atacado com recursos consignados no Orçamento Federal. Os trabalhos estão prosseguindo com regularidade, mas a realização desse empreendimento, que irá ligar o nosso litoral ao sertão e, ao mesmo tempo, articular todo o nosso sistema ferroviário do Nordeste, depende de dotações substanciais como as previstas no Plano Salte, que tornem possível sua conclusão em quatro ou cinco anos.

De acordo com o descrito acima, se tudo ocorre-se de acordo com as previsões da então GWBR (Great Western) naquele momento, posteriormente RFN (Rede Ferroviária do Nordeste), é que as obras de prolongamento seria concluídas em prazo máximo de quatro ou cinco anos, porém todos sabemos que as obras prosseguiram por mais 10 anos, ou seja, entregues em 8 de fevereiro de 1958.
Plano Salte (iniciais de Saúde, Alimentação, Transporte e Energia), mencionado na citação do jornal, foi um plano econômico lançado pelo Governo Federal do Presidente Eurico Gaspar Dutra. O objetivo do Salte era estimular e melhorar o desenvolvimento de setores de saúde, alimentação, transporte e energia por todo o Brasil, assim ajudando e melhorando as condições de vida da população brasileira.
Foi apresentado no Congresso Nacional em maio de 1948, porém só foi aprovado em 1950, sendo abandonado no ano seguinte, em 1951, por não ter alcançado os objetivos pretendidos.
Em notícia do jornal Diário de Pernambuco de 8 de janeiro de 1950, traz a seguinte nota:

"ESTRADA DE FERRO ENTRE CAMPINA GRANDE E PATOS
Mais um benefício de indiscutível importância acaba o presidente Eurico Dutra de proporcionar a Paraíba e ao seu povo.
Trata-se da abertura de crédito de dois milhões de cruzeiros que o chefe da Nação autorizou em dias da última semana, para o prolongamento da estrada de ferro entre as cidades de Campina Grande e Patos.
A notícia causou a mais viva satisfação nos círculos sociais e econômicos do Estado."

O prolongamento Campina Grande-Patos ganhou novo folego com a injeção deste crédito milionário, dando animo ao um sonho antigo, desde o início da década de 1920 (já postada anteriormente neste blog). 
Os trabalhos recomeçaram imediatamente, com boa parte do trecho já atacado sendo enfim terminado até o km 17, onde seria construída a estação de Puxinanã.
Com grande dinamismo os trabalhos seguiram em ritmo acelerado, sendo construído aterros, pontes, bueiros, cortes na rocha, enfim, obras d'artes empregadas na construção deste trecho.
Os trabalhos ficaram a cargo da Empresa Construtora Camilo Collier Ltda, que fizeram uma excepcional obra, que até hoje, 2021, ainda atesta pela durabilidade do material empregado.
O dia tão aguardado chegou, 4 de abril de 1951, uma quarta-feira, a satisfação estava estampada nos semblantes de todos que se aglomeravam em torno da pequena estação, e não era pra menos. 
Correspondentes da imemorial revista Manaíra fizeram a cobertura do evento em Puxinanã. A reportagem completa saiu na edição n° 66 de junho de 1951, cuja bela capa foi desenhada pelo cartunista Deodato Borges, transcreveremos a matéria abaixo:

“Dezenas de automóveis não conduziriam no dia 4 de Abril do corrente ano a quantidade de homens e mulheres que três lastros trouxeram à Puxinanã nesse dia para assistirem a inauguração do trecho da Rêde Ferroviária do Nordeste. 
A festividade foi imponente dentro daquele ambiente de alegria e simplicidade em que os Drs. Pedro e Camilo Collier se apresentavam risonhos e cheios de satisfação pela conquista de mais um povoado ligado à rainha da Borborema através do prolongamento da estrada de ferro Campina Grande-Patos. 
Ali muitas famílias poderão construir as suas casas residenciais e terem tranzações diárias com Campina Grande tamanha a facilidade de transporte adquirida com a realização excepicional da Empreza Construtora Camilo Collier Ltda. 
A inauguração, naquele dia, na área jurídica de Puxinanã, do trecho da estrada de ferro que liga Campina Grande ao Estado do Ceará foi presenciada por autoridades federais e estaduais. 
Destacamos entre as pessoas presentes o sociólogo Lopes de Andrade representante do Exmo. Sr.. Governador José Américo de Almeida, prefeito Elpídio de Almeida, major Antonio Rodembusch vice-prefeito de Campina Grande, major Brigadeiro Alvaro Recker, Cel. Braulio Domingos, Cte. Militar da Rede 7ª, Cap. R. H.. Dobson, representante do Cte. Da 7ª Região Militar, Eng. Vicente de Brito Pereira, diretor do DNEF, Eng. Cornélio Júnior, chefe do D. Fiscal, Eng. Lauriston Pessoa Monteiro, chefe da DC-3, Eng. Gercino Pontes, diretor da RFN, Sr. João Justino Leite, Inspetor de Tráfego de RFN, srs. Aquilino Porto e Caminha França respectivamente, chefes de Tráfego e Linhas, drs. Cláudio Albuquerque do DNEF, Hortencio Ribeiro e outras pessoas de destaque.
Ao erguerem-se as teças pela grande solenidade falou o cônego Severino Mariano vigário de Campina Grande e representante de S. Excia. Revma. D. Anselmo Pietrulla, Bispo da Diocese.
O dr. Vicente de Brito Pereira proferiu, após aquele orador, um discurso que bem esclareceu o vulto progressista que insinua a penetração ferroviária numa região, como soube ressaltar com as devidas considerações, o valor do dr. Camilo Collier elemento destacado da sociedade pernambucana.
Teve elevada importância a colaboração do jornalista Abílio Carício, gerente da Empreza Construtora Camilo Collier, no organizar e orientar todas as ocorrências e cerimônias da festividade.
Desde os fins de 1946 que se encontra no Nordeste Brasileiro realizando várias construções federais, com a mais eficiente e meritória capacidade de trabalho, a Empreza Construtora Camilo Collier Ltda."

Realmente, de acordo com a matéria acima, este foi um acontecimento único para o então Distrito de Puxinanã. Foi construída uma pequena estação em estilo art decó, no estilo de diversas outras do período nos estados de Pernambuco e Alagoas.
A locomotiva que teve a honra de inaugurar o primeiro trecho do prolongamento entre Campina Grande a Patos era uma North British Locomotive Company do tipo mogul (jogo de rodas da classificação whyte 2-6-0), construída em 1904, porém não obtive o número exato da mesma, mas se sabe que era da série 200 de numeração.
Apesar da inauguração da estação e do trecho em 1951, o tráfego de passageiros só foi oficialmente aberto a partir de fevereiro de 1957, quando foi inaugurada a estação de Juazeirinho, sendo a partir de então os trens de passageiros e de cargas o trecho entre Campina Grande e esta localidade, numa distância de 98 quilômetros.
Além da estação propriamente dita, foram construídas uma vila ferroviária, armazém e depósito para trollers e peças em geral.
A estação passou a se chamar Floripes Coutinho, nome de um chefe político muito poderoso na região, falecido em 1934, sendo estampado com seu nome no dístico da estação.
As viagens de trens de passageiros seguiram até 1980, quando o transporte de passageiros foi interrompido, deixando uma grande lacuna na região, já que boa parte da população dependia diretamente deste meio de locomoção entre as localidades contempladas pela malha ferroviária. 
A partir deste momento, a estação e todo complexo foi perdendo o objetivo original, até o ponto que todo, praticamente todo, o antigo complexo da década de 1950 foi totalmente demolido, nos anos subsequentes, até restar muito pouco.
Estação, armazém, vila ferroviária, depósito, tudo demolido. Segundo consta, demolida, pasmem, pela própria Prefeitura Municipal, na primeira metade da década de 1990, um absurdo total, de quem deveria ter o bom senso de ter preservado parte tão importante da saudosa estação. Lamentável que pouco restou do complexo, apenas a plataforma da estação escapou da sana destruidora, atestando para que um dia ali passou e parou trens de passageiros e de cargas. 
Hoje resta apenas saudades dos bons tempos do trem na esquecida, porém relembrada estação de Puxinanã no seu septuagésimo aniversário.  

Inauguração do trecho Campina Grande - Puxinanã em 4 de abril de 1951. Foto: W.V. (Revista Ariús, junho de 1951) 

Bela capa da Revista Manaíra de junho de 1951 com ilustração da inauguração do trecho Campina Grande - Puxinanã 

Ilustração de Deodato Borges para a revista Manaíra de junho de 1951 sobre a inauguração do trecho Campina Grande - Puxinanã em 4 de abril de 1951 

Mesmo local da imagem anterior, desta vez setenta anos depois, apenas a plataforma restou da antiga estação

Aspecto das ruínas da antiga estação de Puxinanã, sendo observada apenas a antiga plataforma, ao fundo a antiga vila ferroviária. Obs: as casas não são as originais, foram demolidas e construídas estas pela comunidade que reside o local

Ruínas do que um dia foi a estação de Puxinanã, na época chamava-se Floripes Coutinho

Entrada da velha estação

A única parede que restou da antiga estação. Pode-se identificar a cor predominante delas, amarelo ocre

Restos do antigo depósito de trollers e outros materiais da linha. Localizava defronte do antigo armazém

Base do antigo armazém, atualmente um curral. Pouco sobrou deste prédio 

Casas atuais no local da vila ferroviária. Restou apenas os alicerces de pedra e cimento. Foram demolidas há mais de vinte anos 

Casa atual do antigo conjunto da vila ferroviária. Pode-se observar o alicerce de pedra e cimento da vila original

segunda-feira, 15 de março de 2021

Gazeta do Sertão - 26 de Maio de 1981 - "Defendida a Volta dos Trens de Passageiros"

Olá amigos do HFPB. Há quase quarenta anos, o imemorial jornal Gazeta do Sertão, com matéria de 26 de maio de 1981, estampava o seguinte título: "Defendida a volta dos trens de passageiros". 
Como havia postado anteriormente, através do jornal Diário da Borborema, o tráfego de passageiros fora interrompido no mês de setembro de 1980. Desde esta data os trens de passageiros em direção ao Sertão, Fortaleza, Itabaiana, Recife, enfim, entre outras localidades, deixaram de circular pelo interior do Estado, causando transtornos imensos para os usuários deste meio de transporte. 
Na matéria de maio de 1981, esta espera já angustiava ainda mais os usuários, especialmente os mais carentes, acostumados a utilizarem o trem de passageiros como o único meio de locomoção para as localidades contempladas. 
Segundo o então Chefe da Estação de Campina Grande, o Sr. Adauto Emídio de Souza, de acordo com a matéria:

"O corte das linhas de passageiros prejudicou não somente a população carente de Campina Grande, mas ainda, de outras cidades próximas, 'que vem sofrendo bastante, uma vez que não tem dinheiro suficiente para pagar viagens de ônibus, hoje bastante elevadas em decorrência da alta do combustível."

Na época, o transporte rodoviário (linhas de ônibus intermunicipais e interestaduais) era bastante caro para as pessoas mais humildes que não tinham condições suficientes para pagaram por uma passagem entre Campina Grande a Recife, por exemplo. Por isso, que a importância do trem de passageiros era fundamental para estas pessoas com baixas condições financeiras.
Com a decisão de desativação do transporte de passageiros pelo interior paraibano em 1980 por motivos "desconhecidos", o tráfego ficou restrito apenas para trens de cargas, mesmo assim, com a paralisação dos trens de passageiros, o número de funcionários empregados continua o mesmo, aproximadamente de 50, sem diminuição do quadro.
O então Chefe da estação, o Sr. Adauto, que trabalha nesta função na estação local há três anos, tem a esperança de voltar este transporte que tanto ajudou a modelar o quadro sócio-econômico-cultural de inúmeras localidades, inclusive Campina Grande. Assim frisou:

"...a população de Campina além de ser beneficiada com um transporte relativamente barato, aproveitaria para a condução de gêneros de primeira necessidade, evitando assim o alto preço do frete rodoviário."

Tudo indica que os apelos e anseios da população pela volta do trem de passageiros não sensibilizaram as autoridades responsáveis pelo tráfego ferroviário deste país. Foi para nunca mais voltar. Ficando apenas com o transporte de cargas.  
Muitas estações fecharam suas portas, já que o transporte de passageiros era a vida útil destas, inúmeras foram abandonadas e demolidas nos anos posteriores. 
No início da década de 2010 era a vez dos trens de cargas deixarem definitivamente de circular pelo interior paraibano, pondo um fim a mais de 100 anos de história do transporte ferroviário na região. Hoje a estação de Campina Grande, assim como outras espalhadas pelo interior do Estado, se encontra totalmente abandonada e em estado deplorável, sem a menor perspectiva de retorno.

A estação de Campina Grande em 1980, ano das últimas viagens de trens de passageiros pelo interior do Estado

terça-feira, 9 de março de 2021

Obras D'Artes - Mais um Grande Bueiro em Arco - Sítio Antas - Puxinanã

Olá amigos do HFPB. Em visita recente ao município de Puxinanã, percorrendo trecho de aproximadamente 4,5 km entre as ruínas da estação local até um pontilhão no Sítio Saulo Maia, por volta do km 3,6 (a partir da estação) no lugar conhecido como Sítio Antas, me deparei com um terceiro grande bueiro em arco.  
Sim, um terceiro grande bueiro de escoamento das águas de um riacho que corta boa parte do município de Puxinanã. Até então tinha conhecimento de outros dois grandes bueiros, construídos pela Empresa Construtora Camilo Collier a partir da segunda metade da década de 1940, quando os trabalhos de prolongamento foram iniciados, sendo este trecho, entre Campina Grande e o então Distrito de Puxinanã entregue em 4 de abril de 1951. 
Inclusive, já foram temas de uma postagem em 2020, na época, não tinha conhecimento da existência deste outro grande bueiro em arco na região, mas tinha suspeitas. Então fui investigar pessoalmente in loco, e as suspeitas foram confirmadas, havia um terceiro grande bueiro em arco na região. Este bueiro ao que me parece, corta o mesmo Rio Bodocongó. Aliás, o percurso da linha férrea no município de Puxinanã em grande pate de seu município segue paralelo a este tributário até adentrar no município de Campina Grande formando o Açude de Bodocongó, este segue por quilômetros até desaguar no Rio Paraíba. 
Lógico, a população local já conhecia há décadas esta obra d'arte, porém para um pesquisador novato da ferrovia paraibana isto era novidade.
O local até o referido bueiro é um pouco dificultoso, devido a altura do aterro onde o mesmo se localiza, cercas com arame farpado e a vegetação local, enfim, dificultando de certa forma o acesso.  
O referido bueiro tem as seguintes dimensões: 12,85 metros de comprimento (de uma entrada a outra), 6 metros de largura, 6 metros de altura (boca), 12,85 metros (comprimento das ombreiras).
Constatei que em largura e altura este bueiro é um pouco maior que os dois já mencionados anteriormente. 
O que impressiona é o tão bem feito trabalho empregado na época de sua construção, evidenciando a solidez e durabilidade da obra, já que se passaram mais de 70 anos desde sua construção, mesmo com o completo abandono que a malha do interior do Estado vem sofrendo há mais de 10 anos. A vegetação cobre a maior parte do trecho, sem a menor perspectiva de um possível retorno, parece mesmo ser o fim do transporte ferroviário no interior paraibano.
Realmente foi um dia incrível a então "descoberta" desta magnífica obra d'arte, confira abaixo as imagens desta bela obra:
 
O grande bueiro do Rio Bodocongó no Sítio Antas. Aspecto da entrada oeste

Aspecto da entrada oeste

Aspecto da entrada leste

Mais um aspecto da entrada leste

Alto da boca

Interior do mesmo

Comparativo de minha altura com a do bueiro. Entrada oeste

Aspecto de construção de um bueiro em arco semelhante ao bueiro do Sítio Antas em Puxinanã. Caracterizado por métodos ingentes. Notar a plataforma onde seriam despejados areia para a conclusão do aterro. Fonte: O Observador, dezembro de 1947

Colocação de cimbre de um bueiro em arco. Fonte: O Observador, dezembro de 1947

Mapa da obras até então realizadas no prolongamento entre Campina Grande e Patos. Fonte: O Observador, dezembro de 1947

Detalhe do trecho construído entre Campina Grande e Puxinanã, no Km 17, até 1947. Fonte: O Observador, dezembro de 1947

Mapa do Google Earth mostrando o trecho percorrido entre as ruínas da Estação de Puxinanã até o local do Bueiro no Sítio Antas, total de 3,6 km entre as duas localidades