sábado, 13 de novembro de 2021

O Sistema de Bondes a Tração Animal da Capital Paraibana - Parte 1

Olá amigos do HFPB. Hoje inicia uma série de postagens a respeito da história do sistema de bondes na Capital paraibana, João Pessoa, na época chamada de Parahyba.
História essa que tem seu gênese no final do século XIX, mais precisamente em 19 de abril de 1895, quando vários negociantes da capital, a firma exportadora de algodão Aron Cahn & Cia, se reuniram na sede da Associação Comercial com o objetivo de fundar uma companhia de bondes. 
Inúmeras capitais brasileiras já haviam instalado seu sistema de transporte de bondes urbanos, especialmente movidos à tração animal (muares), e a capital de todos os paraibanos não poderia ficar de fora desse progresso. Dentre as capitais nordestinas contempladas com este benefício antes de João Pessoa, destacam-se: Salvador em 1866, Maceió em 1869, Recife em 1871, São Luiz em 1872 e Fortaleza em 1880. Era a vez da capital paraibana ser também agraciada com o transporte de bondes.
Sob a direção do Engenheiro Antônio Augusto de Figueiredo Carvalho, iniciou-se a construção, no dia 24 de agosto de 1895, do prédio que iria servir de escritório à Companhia Ferro-Carril Parahybana, ao lado da antiga estação da The Conde D'Eu Railway Company, esta, demolida em 1942 para a construção da atual Estação da CBTU de João Pessoa. Estiveram presente ao ato de lançamento da pedra fundamental várias autoridades e grande parte da população local.
A diretoria da Companhia Ferro Carril Parahybana, fez remessa a companhia alemã Orenstein & Koppel, da importância de 1.116 libras esterlinas como primeira prestação do contrato para o fornecimento do material para a implantação da referida ferro-carril.
De acordo com o jornal A União de 22 de fevereiro de 1896:

"Segundo aviso recebido hontemda casa Orenstein & Koppel, de Berlin, embarcou em data de 30 de Janeiro ultimo no navio de vella "Luna" o material encommendado aquella casa para a nossa linha de bonds. Parabéns, pois, aos accionistas da mesma, que irão, em breve, ver realisado este melhoramento em nossa capital."

No dia 28 de março de 1896, chegou ao Porto de Cabedelo, o navio Luna, com todo o material necessário para a implantação da linha.
Os trabalhos seguiram em ritmo acelerado, até que o tão esperado dia de inauguração chegou, aquele 6 de junho de 1896, entraria definitivo para a história do sistema de transportes urbanos paraibano.
De acordo com o excelente livro "Roteiro Sentimental de Uma Cidade" de Walfredo Rodriguez, 2° Edição, 1994, descreve o trajeto inicial da linha da Ferro-Carril:

"Partindo da Praça Álvaro Machado, a linha passava pela Praça Pedro II (atual 15 de Novembro), subia a Visconde de Inhaúma, curvando à direita pela Rua do Comércio (posteriormente Maciel Pinheiro); subia a curva, à esquerda, pela Estrada do Carro (depois da guerra civil de Canudos denominada de Rua Barão do Triunfo), passando, em curva, à direita, pela frente do antigo Quartel do 27.° Batalhão de Linha, no Largo Cel. Bento da Gama, (na atualidade, Praça Pedro Américo), e daí curvando, à esquerda, subia a Rua do Fogo (Avenida Guedes Pereira dos nossos dias), para tornar a fortemente íngrime Ladeira do Rosário. Ali bifurcando à direita, seguia pela Rua Direita, passando em frente ao Palácio do Govêrno, Rua Bom Jesus dos Martírios até a Igreja do mesmo nome, onde estavam as pontas dos trilhos."   

Como não poderia ser, a festividade tomou conta de todos os recantos da cidade. Os pontos terminais da linha foram enfeitados com bandeirolas, os bondes foram ornados com folhas de pitangueiras e galhardete (tipo de bandeira usada no âmbito náutico, geralmente em formato triangular). Durante a noite mais festividades se seguiram, com a queima de fogos de artifício, além da banda de música do 27° Batalhão da Polícia, animando os festejos daquele dia histórico.
Este tráfego provisório de 1,2 Km de extensão, ficou conhecido como "Linha do Comércio", tornou-se a melhor opção para o percurso, transformando em definitivo. Não terminou por aí, em pouco tempo após a abertura do tráfego em 6 de junho, a Companhia Ferro-Carril Parahybana, abriu mais duas extensões de suas linhas. 
A Linha do Tambiá, fazia o mesmo percurso da Linha do Comércio, passando pela Igreja do Rosário dos Pretos, dobrava à esquerda, alcançando a Rua Duque de Caxias, passava pela Rua São Francisco, ia até o Campo do Conselheiro Henriques, onde era o ponto terminal do ramal, em frente ao Convento e Igreja Nossa Senhora do Carmo. O percurso somado partindo da Igreja do Rosário até a do Carmo, era relativamente curto, com 500 metros de extensão, somados aos 1,750 metros desde seu ponto inicial.
A Linha das Trincheiras, foi a segunda a ser aberta naquele mesmo ano, seguia o mesmo traçado da Linha do Comércio, passando pela Igreja do Rosário dos Pretos, dobrava à direita, percorrendo 600 metros passando pela Rua Duque de Caixas, passando na lateral do Campo do Comendador Felizardo, como também na frente do Lyceu Parahybano, pelo Palácio do Governo, até seguir para a Rua das Trincheiras onde o ponto terminal era em frente a Igreja Bom Jesus dos Martírios. O percurso total entre o ponto inicial até o terminal, defronte a Igreja dos Martírios era de 1,800 metros.
Durante este período de expansão dos referidos ramais, foi acrescentado também um desvio, afim de facilitar no retorno dos bondes para a chamada Linha Comércio ao ponto inicial do Largo da Gameleira. Este desvio iniciava logo após a subida da Ladeira do Rosário, quando a linha bifurcava e seguia para a à direita, alcançando a Rua Duque de Caxias, este bifurcava em seguida à esquerda na primeira esquina, adentrando no Beco do Barão, seguiam curvando à esquerda, percorrendo o pátio da Igreja Nossa Senhora das Mercês, e, na primeira esquina, novamente à esquerda, entrava no Beco do Rosário, passando pelo oitão da Igreja do Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, chegando novamente à Rua Duque de Caxias, contornando, assim, todo o quarteirão e pronto para descer a Ladeira do Rosário em direção à Cidade Baixa. Resumindo, dava um contorno completo pelo quarteirão. Este desvio serviu para as manobras dos bondes das referidas linhas.
Já nos primeiros anos do século XX, em 1902, mais precisamente, foi executado outro prolongamento dos trilhos, desta vez a partir do ramal da Linha das Trincheiras.
Este novo prolongamento partiria da Igreja de nossa Senhora dos Martírios, prosseguia passando pela casa do Sr. Neófilo Bonavides, prosseguindo pela Avenida São Paulo até chegar na antiga Feira de Jaguaribe, num percurso de 700 metros.
Segundo algumas fontes, a implantação deste trecho se deu fundamentalmente pela referida feira. A citada feira localizava-se no cruzamento da antiga Avenida São Paulo, com a Rua do Hipódromo, atualmente Avenida 1° de Maio, e a Avenida 12 de Outubro, onde foi construída a Praça General João Neiva. (Continua na Parte II)...

Fontes: 
Roteiro Sentimental de Uma Cidade, Walfredo Rodriguez, Ed. A União, 2° Edição, 1994.
Mensagem Apresentada à Assembleia Legislativa, Dr. Álvaro Lopes Machado, 20 de Outubro de 1905.
Mensagem Apresentada à Assembleia Legislativa, Monsenhor Walfredo Leal, 1 de Setembro de 1906.
Mensagem Apresentada à Assembleia Legislativa, Monsenhor Walfredo Leal, 1 de Setembro de 1907.
...E O BONDE A BURRO FOI IMPLANTADO: um ícone de modernidade da cidade da Parahyba no final do século XIX. José Estevam de Medeiros Filho, Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo, UFBA, 2013.

Estação da Praça Álvaro Machado em 1903. Ponto inicial do sistema de Bondes de Animais da então Parahyba, inaugurado em 6 de junho de 1896. Fonte da imagem: Jampadasantigas, Instagram 

Praça Álvaro Machado em princípios do Século XX, no canto esquerdo pode-se observar a sede da Companhia Ferro-Carril Parahybana, ao centro a estação ferroviária de 'Parahyba'. 

Horários da Companhia Ferro-Carril Parahybana. Fonte: Almanak do Estado da Parahyba, 1899

Bonde de Animais restaurado localizado na Usina Cultural Energiza em João Pessoa. Foto em maio de 2015 em visita do autor ao local. 

Bonde de Animais restaurado localizado na Usina Cultural Energiza em João Pessoa. Foto em maio de 2015 em visita do autor ao local.

Bonde de Animais restaurado localizado na Usina Cultural Energiza em João Pessoa. Foto em maio de 2015 em visita do autor ao local.

Bonde de Animais restaurado localizado na Usina Cultural Energiza em João Pessoa. Foto em maio de 2015 em visita do autor ao local.

domingo, 24 de outubro de 2021

Raridade - Estação de Patos na Década de 1970

Olá amigo do HFPB. Hoje, 24 de outubro de 2021, uma data especial, data esta em que se comemora os 118 anos de elevação a condição de cidade da "Morada do Sol", "Capital do Sertão", "Rainha do Sertão", enfim, alcunhas para descrever a querida cidade de Patos.
No dia 24 de outubro de 1903, a então vila de Patos foi elevada a condição de cidade, se tornando a mais próspera de todo o sertão paraibano, onde hoje supera a marca de 103 mil habitantes. 
Para comemorar esta importante data, fui agraciado pelo patoense Mielly Alves, residente da própria cidade de Patos de uma bela imagem da estação local na década de 1970.
A estação de Patos, como postada anteriormente, foi inaugurada em 19 de abril de 1944, pela RVC (Rede Viação Cearense), como parte de um plano em integrar os trilhos vindos do Ceará com os da Paraíba, fato este consumado apenas em 8 de fevereiro de 1958.
Na referida imagem pode-se observar caminhões Chevrolet 6500 das décadas de 50/60, estacionados ao lado da plataforma, possivelmente para descarregar alguma mercadoria, algodão talvez. Também podemos observar alguns vagões de cargas, Patos era uma importante rota entre a Paraíba e Ceará, e grande parte das cargas, sejam elas as mais diversas, especialmente o algodão, tinha Patos como uma importante parada para abastecimento destas.
A estação atualmente está em relativo bom estado de conservação, apesar do total abandono de todo o ramal do interior paraibano.
Mielly tem um apreço especial pela estação, seu pai, o Sr. Ademar Almeida, foi ex-funcionário da RFFSA (Rede Ferroviária Federal S/A), desde 1982, e atualmente aposentado. Ademar mora defronte a estação, onde dedicou com muito esforço o trabalho empregado na ferrovia onde foi artificio de via permanente e posteriormente condutor. Exemplo de empregado, onde constituiu família tendo 4 filhos.
Neste dia especial para todo patoense espalhado pelos 4 cantos da Terra, agradeço a Mielly pelo fornecimento desta bela imagem onde remetemos aos tempos áureos da ferrovia na Paraíba.
Deixo aqui meus singelos parabéns para a "Morada do Sol". 

Estação de Patos na década de 1970. Auto desconhecido. Arquivo: Mielly Alves

Sr. Ademar Almeida, ex-funcionário da RFFSA, pai do amigo Mielly Alves. Arquivo: Mielly Alves 

Estação de Campina Grande - Comparativo de Antes e Depois

Olá amigos do HFPB. Ainda em comemoração pelos 114 anos de inauguração da "Estação Velha", pela GWBR (Great Western of Brazil Railway) em 2 de outubro de 1907, como ficou conhecida a primeira estação de Campina Grande, trago um comparativo de algumas imagens históricas da mesma com fotos atuais do mesmo ponto onde estas foram tiradas em vários momentos de sua história. 
Confira abaixo o antes e o depois da estação de Campina Grande:
 
Comparativo - Antes e Depois. Finalização da construção da estação em meados de 1907

Comparativo - Antes e Depois. Inauguração em 2 de outubro de 1907

Comparativo - Antes e Depois. A estação em 1922

Comparativo - Antes e Depois. A estação no início da década de 1930

Comparativo - Antes e Depois. A estação em 1937, recebendo tubulações para o reservatório de Vaca Brava

Comparativo - Antes e Depois. A estação no início da década de 1970

Comparativo - Antes e Depois. A estação no final da década de 1970

Comparativo - Antes e Depois. A estação em meados da década de 1980

sábado, 2 de outubro de 2021

Raridade - Estação de Campina Grande em 1907 - 2 de Outubro, Aniversário de 114 Anos de Inauguração

Olá amigos do HFPB. Hoje, 2 de outubro de 2021, uma data comemorativa. Data esta muito especial para a história ferroviária paraibana e em especial, para a história campinense. Há exatos 114 anos, era inaugurada de forma oficial, o prolongamento de Itabaiana a Campina Grande, consequentemente de sua estação. Percurso de 90 quilômetros, passando pelos atuais municípios de Itabaiana, Mogeiro, Ingá e Campina Grande.
Detalhe, as estações de Lauro Müller, Mogeiro, Ingá e Galante, também foram inauguradas naquele 2 de outubro de 1907.
Foi a partir daquele evento, naquela tarde daquela quarta-feira histórica, que a cidade de Campina Grande passaria por um "boom" sócio-econômico.
Lógico, que não foi apenas a chegada da ferrovia em terras campinenses que foi a maior alavancadora deste desenvolvimento, mas não podemos negar a imensa influencia que este benefício trouxe a cidade e região. 
Em postagens comemorativas em anos anteriores, neste blog, falamos bem sobre este 2 de outubro e sua importância para o cenário econômico paraibano. 
Em junho do corrente ano, foi lançado o livro História de Campina Grande, De Aldeia à Metrópole, dos amigos Vanderley de Brito e Maria Ida Steinmuller. 
Vanderley de Brito é o atual Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande (IHCG), função que ocupa desde 2018, Maria Ida Steinmuller é a Presidente de Honra do IHCG. Ambos não medem esforços para o engrandecimento da instituição e da memória campinense.
Trata-se da mais nova obra literária referente a história campinense, história esta muito bem escrita, com linguagem acessível, sem enrolação, que se inicia desde antes de sua fundação, no século XVII, até o final do século XX. 
Este é resultado de amplas apurações de dados preciosos, trabalho este que custou três anos de árduas pesquisas para ambos. Obra esta que recomendo, e muito.
Ótimo livro, com inúmeras imagens, ilustrações e ótimos textos, fazendo o leitor ter uma verdadeira "viagem através do tempo" ao folear suas páginas. No sub-capítulo 10.2, traz perfeitamente a epopeia da chegada da linha férrea a "Rainha da Borborema", tendo uma das principais figuras o então Prefeito Municipal Christiano Lauritzen, personagem este que não mediu esforços em trazer tal benefício a sua terra adotiva.
Para surpresa minha e dos demais leitores, os autores incluíram uma imagem até então nunca publicada em outro meio literário. Se trata de uma bela imagem da estação de Campina Grande em fase de conclusão, imagem esta muito provavelmente tirada entre junho e setembro de 1907. 
Analisando a referida imagem, ela nos traz um grupo de pessoas defronte a estação, aparentemente não dá pra saber quem são, mas é provável, que se tratem de funcionários empregados pela GWBR (Great Western of Brazil Railway), na construção da estação e linha férrea e de alguns populares. 
Os dísticos da estação com os nomes Campina Grande e GWBR ainda não foram confeccionados, o que pode ser observado na foto histórica da inauguração de 2 de outubro.
O que mais me surpreendeu na imagem, foi o aparecimento de uma locomotiva trazendo materiais para a construção de linha férrea. Tratava-se de um "trem de lastro", empregado exclusivamente no emprego de transporte de materiais como lastro (brita), trilhos, dormentes, trabalhadores (estes conhecidos popularmente como cassacos), madeiras, tijolos, entre outros materiais. Em breve trarei uma postagem em análise sobre esta locomotiva, aguardem.
De acordo com a imagem, o trecho defronte a estação ainda não tinha recebido trilhos e dormentes, apenas pedras estavam no lugar. 
Enfim, trata-se de um bela fotografia sem igual, que remete aos tempos áureos do transporte ferroviário brasileiro. 
Agradeço mais uma vez aos amigos Vanderley de Brito e Maria Ida Steinmuller pela brilhante escolha da imagem para compor o riquíssimo acervo gráfico do livro História de Campina Grande, De Aldeia à Metrópole, 2021, e pela disponibilidade.
Deixo aqui este presente em comemoração ao tão famoso 2 de outubro, data esta tão significativa para a história ferroviária paraibana.

Fonte: História de Campina Grande, De Aldeia à Metrópole, Vanderley de Brito e Ida Steinmuller, Centro Editorial IHCG, Campina Grande, 2021. 

Foto raríssima de 1907, antes da inauguração da estação de Campina Grande em 2 de outubro do mesmo ano. Fonte: História de Campina Grande, De Aldeia à Metrópole, Vanderley de Brito e Ida Steinmuller, Centro Editorial IHCG, Campina Grande, 2021. 

O belo e novíssimo livro História de Campina Grande, De Aldeia à Metrópole, Vanderley de Brito e Ida Steinmuller, Centro Editorial IHCG, Campina Grande, 2021. 

Os autores Vanderley de Brito e Maria Ida Steinmuller